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segunda-feira, 2 de julho de 2012

O ESPÍRITO SANTO NA BÍBLIA


O ESPÍRITO SANTO
NA BÍBLIA

A essência do ministério do Espírito Santo, nestes dias ou em qualquer outro tempo da era cristã, é ser mediador da presença de nosso Senhor Jesus Cristo. Sob este ministério todos nós, cristãos, já estamos vivendo, embora nossos pensamentos a respeito dele possam estar um pouco atrasados em relação à realidade.
A presença de Jesus, como mencionada acima, deve ser considerada não em termos espaciais, mas em termos relacionais. Aquilo para o que estamos apontando quando usamos esta frase é uma percepção de três coisas. A primeira é que Jesus de Nazaré, o Cristo das Escrituras, uma vez crucificado, agora glorificado, está aqui, abordando e dirigindo-se pessoalmente a nós. A segunda é que ele é ativo, iluminando-nos, animando-nos e transformando-nos poderosamente, junto com outras pessoas, enquanto ele nos incita, tentando quebrar a nossa morosidade, aguça a nossa percepção, alivia as nossas consciências culpadas, adoça o nosso temperamento, sustenta-nos sob pressão e nos fortalece para praticarmos a justiça. A terceira é que em si mesmo, como em Sua obra, ele é glorioso, merecedor de toda a adoração, todo amor e toda lealdade de que somos capazes. A mediação da presença de Jesus, portanto, é uma questão de o Espírito fazer o que for necessário para a criação, o sustento, o aprofundamento e a expressão desta percepção nas vidas humanas. Os temas que surgem, à medida que se expõe isto, são bastante familiares; comunicação de Deus em Cristo e comunhão com Deus através de Cristo; a interpretação das Sagradas Escrituras e a iluminação dos corações humanos; a regeneração e santificação de pecadores; a realização dos dons e das boas obras; o testemunho do Espírito acerca da nossa adoção e a sua ajuda nas fraquezas humanas; o engendrar sobrenatural da fé, da oração, da esperança, do amor e de todas as muitas facetas do caráter de Cristo em nós; e assim por diante. Nada é novo aqui, exceto o fato de se estar enfatizando a centralidade de Cristo em relação a todas as atividades do Espírito, de maneira que não é sempre feito. Este capítulo procura mostrar que, ao fazê-lo, estamos apenas seguindo as diretrizes da própria Bíblia.
Seria melhor se iniciássemos, verificando a palavra Espírito e observando o que ela significa. Como já fizemos uma breve abordagem na introdução, queremos concluí-la aqui.


O Espírito de Deus


Para muitas pessoas nos dias atuais, Espírito é uma palavra vaga e descolorida. O pensamento que mais provavelmente ela faz vir à mente é de um temperamento ou atitude humana (bom espírito ou mau espírito, espíritos animais, espírito alegre ou triste, espírito de engano ou de bondade, "o espírito da coisa" e até "espírito de porco", "espírito errado", etc.). Outrora, espírito era o nome clássico dado, a inteligências não-humanas e desencarnadas de várias espécies (anjos, demônios, fadas, duendes, fantasmas, almas penadas, deuses locais que habitavam nas montanhas, nas pedras e nas árvores); desta forma, quando em 1691 o ancião puritano Richard Baxter escreveu o seu livro esquisito afirmando a realidade dessas coisas, deu-lhe o nome de A Certeza dos Mundos dos Espíritos. Porém, a crença em espíritos como estes se desvaneceu, pelo menos em países do Ocidente. Muitos, agora, entendem por espírito nada mais do que aquilo que alguns dicionários chama afetadamente de "licor destilado, contendo muito álcool" (em português arcaico era este o sentido da palavra "espírito"; daí a palavra "espiriteira", que é um fogareiro a álcool) e consideram a crença em outros tipos de espírito como indicador de, no mínimo, falta de sobriedade filosófica. Enfim, a nossa civilização não nos presta nenhuma ajuda, virtualmente, quando o, Espírito de Deus é o tema de nosso estudo.
De fato, Espírito, como todos os termos bíblicos que se referem a Deus, é uma palavra-figura com um significado vivo, preciso e colorido. Ela retrata fôlego soprado ou expirado, como quando você assopra as velas do seu bolo de aniversario, enche balões de ar nas chamadas bexigas ou ofega enquanto corre. Espírito, neste sentido, foi aquilo com que o lobo mau estava ameaçando os porquinhos, quando lhes disse: "Vou soprar, vou soprar e vou de rrubar a sua casa!" O quadro é de ar impelido com força, até violentamente, e o pensamento que esse quadro expressa é de energia liberada, força executiva invadindo, poder em exercício, vida demonstrada pela atividade.
Tanto a palavra hebraica quanto a grega, traduzidas como Espírito em nossas Bíblias (ruach e pneuma), têm em si esse pensamento básico e ambas têm a mesma amplitude de associação. Elas são usadas em relação a (1) o Espírito divino, pessoal e proposital, invisível e irresistível; (2) a consciência humana individual (sentido em que espírito se torna sinônimo de alma, como, por exemplo, em Lucas 1.46, 47; e (3) o vento que, quando sopra, agita as folhas das árvores, a ponto de desarraigá-las, derrubando, até edifícios. (Como exemplos deste último uso, veja (a) Ezequiel 37.1-14, a visão dos ossos secos, onde ruach é sopro, vento, e Espírito de Deus em rápida sucessão, e (b) o, uso de pneuma para o vento, bem como para o Espírito de Deus, em João 3.8.) Gostaríamos que a nossa língua tivesse uma palavra com todas estas associações. Soprar (e palavras cognatas, como assoprar) e fôlego são duas palavras em português (as únicas, pensamos) que se referem tanto à expiração do ar dos pulmões humanos e à agitação do vento, mas em português não há nenhum termo que cubra, juntamente com essas acepções, a individualidade intelectual, volitiva e emocional de Deus e de suas criaturas racionais. Espírito, em português, ao contrário, denota uma personalidade consciente em ação e reação, mas não pode ser usada ao mesmo tempo para denotar sopro ou vento. Esta é, sem dúvida uma razão por que ela não nos sugere poder em ação da maneira que ruach e pneuma o faziam para o povo dos tempos bíblicos.
Poder em ação é, de fato, o pensamento bíblico básico sempre que o Espírito de Deus é mencionado. No Antigo Testamento, “o Espírito de Deus” é sempre Deus em atuação, mudando as coisas. No curso de pouco menos de cem referências (contagem mínima, oitenta e oito; máxima, noventa e sete; os eruditos divergem), se diz que o Espírito de Deus:
1. Molda a criação, dando-lhe forma, e anima os seres criados Gênesis 1.2; 2.7; Salmos 33.6; Jó 26.13; 33.4).
2. Controla o curso do que chamamos natureza e história (Salmos 104.29, 30; Isaías 34.16; 40.7).
3. Revela a verdade e a vontade de Deus aos seus mensageiros, por comunicação direta e/ou percepção destilada (Números 24.2; 2 Samuel 23.2; 2 Crônicas 12.18; 15.1; Neemias 9.30; Jó 32.8; Isaías 61.1-4; Ezequiel 2.2; 11.24; 37.1; Miquéias 3.8; Zacarias 7.12).
4. Ensina ao povo de Deus, através destas revelações, o caminho da fidelidade e da frutificação (Neemias 9.20; Salmos 143.10; Isaías 48.16; 63.10-14).
5. Instiga a uma reação pessoal a Deus — conhecimento de Deus no sentido da própria Bíblia — na forma de fé, arrependimento, obediência, justiça, abertura para a instrução de Deus e comunhão com Ele, por meio de louvor e oração (Salmos 51.10-12; Isaías 11.2; 44.3; Ezequiel 11.19; 36.25-27; 37.14; 39.29; Joel 2.28, 29; Zacarias 12.10).
6. Equipa indivíduos para a liderança. (Gênesis 41.38, José; Números 11.17, Moisés; 11.16-29, setenta anciãos; 27.18, Deuteronômio 34.9, Josué; Juízes 3.10, Otniel; 6.34, Gideão; 11.29, Jefté; 13.25; 14.19; 15.14, Sansão; 1 Samuel 10.10; 11.6, veja também 19.20-23, Saul; 16.13, Davi; 2 Reis 2.9-15;       Elias e Eliseu; Isaías 11.1-5, 42.1-4, o Messias).
7. Equipa indivíduos com perícia e força para realizações criativas (Êxodo 31.1-11, 35.30-35, Bezalel e Aoliabe; veja também 1 Reis 7.14, Hirão, para habilidade artística; Ageu 2.5, Zacarias 4.6, para a edificação do templo).
Em suma, no Antigo Testamento o Espírito é Deus ativo como criador, controlado, revelador, vivificador e capacitador; e em tudo isto Deus se faz presente aos homens da maneira dinâmica, exigente em que o, Senhor agora se faz presente aos crentes. Quando o salmista pergunta: "Para onde me ausentarei do teu Espírito? Para onde fugirei da tua face?" (139.7), essas duas interrogações se expõem uma à outra; ambas significam a mesma coisa. Contudo, a personalidade distinta do Espírito não fazia parte desta revelação. No Antigo Testamento, o Espírito (sopro!) de Deus está em pé de igualdade, logicamente, com sua mão e seu braço, dois antropomorfismos que significam o seu poder grandioso, e com seu zelo, uma personificação que significa a sua firmeza de propósitos. Na verdade você poderia dizer que as referências ao Espírito de Deus significam Deus em ação em resoluta onipotência, agindo juntos o seu braço e o seu zelo, mas não seria verdade dizer que essas referências expressam qualquer pensamento, da parte dos escritores, de uma pluralidade de pessoas dentro da unidade da Divindade. A verdade da Trindade é uma revelação do Novo Testamento.
Mas se alguém pensasse que, de acordo com a Escritura, Deus era unipessoal durante o período veterotestamentário e que se tornou tripessoal apenas quando Jesus nasceu, estaria errado. O que está em questão aqui não é o modo de ser de Deus desde a eternidade, mas a forma da sua revelação na história. Não estamos dizendo que a terceira pessoa da Divindade não existia ou não estava ativa nos tempos do Antigo Testamento; os escritores do Novo Testamento nos asseguram de que ela existia e estava ativa. Estamos apenas dizendo que a sua personalidade distinta não é expressa pelos escritores do Antigo Testamento; embora a triunidade de Deus seja um fato eterno, só através de Cristo ela se tornou conhecida.
Agora acrescentamos isto: a forma correta pela qual os seguidores de Jesus Cristo, devem interpretar o Antigo Testamento é à luz de tudo, o que foi revelado em Cristo e através dele, e que agora está diante de nós no Novo Testamento. Em seguida à identificação de Jesus acerca de si próprio como o ponto de referência e cumpridor das Escrituras (veja Mateus 5.17; 26.54-56; Lucas 18.31; 22.37; 24.25-27; 44-47; João 5.39, 45-47), os apóstolos aclamaram todo o Antigo Testamento como instruções dadas por Deus para os cristãos (veja Romanos 15.4; 1 Coríntios 10.11; 2 Timóteo 3.15-17, 2 Pedro 1.19-21; 3.16); e à medida que eles constantemente interpretavam a partir dele a verdade e sabedoria divinas, também encontravam com constância o seu conhecimento de Cristo e das realidades cristãs refletidos nele. No uso que o Novo Testamento faz do Antigo, vemos este fato acontecer. Os cristãos apostólicos, portanto, devem ler as referências do Antigo Testamento à obra do Espírito de Deus, à luz da revelação neotestamentária da personalidade distinta do Espírito, da mesma forma como, devem ler as referências do Antigo Testamento ao único Deus, o Senhor Javé, Criador Salvador e Santificador, o único objeto correto de adoração, à luz do desvendamento realizado pelo Novo Testamento, de que Deus é triúno. Não há nada de arbitrário, em se fazer isto; a justeza desse procedimento segue-se diretamente ao reconhecimento, de que o Deus de ambos os testamentos é único.
Na verdade, este procedimento não é o que os eruditos modernos chamam de exegese histórica. A exegese histórica se limita a perguntar o que o escritor humano, queria que seus leitores visados entendessem do que ele dissera. A leitura do Antigo Testamento à luz do Novo é mais bem descrita como interpretação teológica — "interpretação canónica", para usar a frase correntemente empregada — que é o, caso de se perguntar o que o Espírito Santo, que inspirou cada escritor, quer que os cristãos hodiernos encontrem em suas palavras, quando estes as lêem, tendo como seu contexto toda a verdade do Novo Testamento e todo o resto da Bíblia cristã. A exegese histórica nos assegura de que as declarações veterotestamentárias acerca do sopro poderoso de Deus não tinham a intenção, da parte dos seus escritores humanos, de dar a entender distinções pessoais dentro da Divindade. A interpretação teológica cristã, contudo, nos obriga a seguir o Senhor Jesus e seus apóstolos em reconhecer que a terceira pessoa da Divindade estava ativa nos tempos do Antigo Testamento, e que as declarações veterotestamentárias acerca do sopro poderoso de Deus de fato se referem à atividade do Espírito pessoal. A direção aquí é dada por passagens como Marcos 12.36 e Atos 1.16; 4.25, onde se diz que Davi falou pelo Espírito Santo, ecoando 2 Samuel  23.2; Lucas 4.18-21, onde Jesus, cheio do poder do Espírito Santo pessoal (veja Lucas 3.22; 4.1, 14; veja também Lucas 1.35, 41, 67), declara que a sua pregação cumpre o testemunho de Isaías da sua própria unção pelo Espírito, no capítulo 61.1-4 da sua profecia João 3.5-10, onde o ensinamento acerca do novo nascimento “da água e do Espírito” refere-se claramente a Ezequiel 36.25-27; 37.1-14, e Nicodemos, o mestre de Israel, é admoestado (versículo 10), por não ter compreendido essa referência; Atos 28.25 e Hebreus 3.7; 10.15-17, onde o ensinamento do Artigo Testamento que tem uma aplicação neotestamentária é atribuído ao Espírito Santo como sua fonte; e - o que é mais decisivo - Atos 2.16-18, onde Pedro identifica o derramamento, pentecostal do Espírito Santo pessoal como o que havia sido predito nas palavras "...derramarei o meu Espírito...", de Joel 2.28, 29.
Prossigo, portanto, tendo como base o fato de que as referências veterotestamentárias ao Espírito de Deus são de fato testemunhas da obra do Espírito Santo pessoal no Novo Testamento.


A personalidade do Espírito

O ESPÍRITO COMO PARÁCLETO. No Novo Testamento, o Espírito Santo é apresentado como a terceira pessoa divina, ligado ao Pai e ao Filho, mas distinto deles, da mesma forma como o Pai e o Filho são distintos um do outro. Ele é "o Parácleto" (João 14.16, 25; 15.26; 16.7) — uma palavra rica para a qual não há tradução adequada em português, visto que ela, traduzida, significa alternativamente Consolador (no sentido de Fortalecedor), Conselheiro, Auxiliador, Sustentador, Advogado, Aliado, Amigo Mais Velho — e só uma pessoa seria capaz de desempenhar todos esses papéis. Mais precisamente, ele é “outro” Parácleto (14.16), o segundo pela ordem (podemos assim dizer) em relação ao Senhor Jesus, continuando o ministério do próprio Jesus — e somente uma pessoa, alguém como Jesus, poderia fazer isso. João sublinha o ponto em foco, usando repetidamente um pronome masculino (ekeinos, "ele") para expressar as referências de Jesus ao Espírito, quando a gramática grega exigiria um neutro (ekeino, “ele”, usado para referir-se a objetos) para concordar com o substantivo neutro "Espírito" (pneuma); João deseja que os seus leitores não tenham nenhuma dúvida de que o Espírito é uma pessoa, e não uma coisa, uma força, um objeto. Este pronome masculino, que aparece em 14.26; 15.26; 16.8, 13, 14 é ainda mais notável porque em 14.17, onde o Espírito é apresentado pela primeira vez, João havia usado os pronomes neutros gramaticalmente corretos (ho e auto), assegurando, desta forma, que a sua mudança subseqüente para o gênero masculino seria percebida não como demonstração da sua incompetência em termos da língua grega, mas como teologia magistral.
Mais uma vez se diz que o Espírito Santo ouve, fala, testifica, convence, glorifica a Cristo, guia, dirige, ensina, ordena, proíbe, deseja, dá capacidade para falar, dá ajuda e intercede pelos cristãos com gemidos inarticulados, clamando ele mesmo a Deus nas orações destes (veja João 14.26; 15.26; 16.7-15; Atos 2.4; 8.29; 13.2; 16.6,7; Romanos 8.14, 16, 26, 27; Gálatas 4.6; 5.17. 18). E, também, pode-se mentir para ele, e ele pode ser ofendido (Atos 5.3, 4; Efésios 4.30). Só a respeito de uma pessoa podem ser ditas estas coisas. A conclusão, é de que o Espírito não é apenas uma influência; ele, à semelhança do Pai e do Filho, é uma pessoa individualmente.

O ESPÍRITO COMO DIVINDADE. Sobretudo, o Espírito Santo é apresentado como pessoa divina. A sua individualidade está dentro da unidade da Divindade. A própria palavra santo sugere a sua divindade, várias passagens são explícitas a este respeito. Jesus declara que o nome de Deus, em que devem ser batizados aqueles que se tornam seus discípulos (nome, no singular, note, pois existe apenas um só Deus) é tripessoal: “nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mateus 28.19). (Karl Barth docemente chamou esta expressão de "nome cristão" de Deus!) Mais uma vez, João começa a sua carta às sete igrejas, desejando-lhes graça e paz “da parte daquele que é, que era e que há de vir, da parte dos sete Espíritos que se acham diante do seu trono, e da parte de Jesus Cristo...” (Apocalipse 1.4, 5). No simbolismo numérico, de Apocalipse, sete significa a perfeição divina, e os "sete espíritos" certamente significam o Espírito Santo, na plenitude do seu poder e sua obra (veja 3.1; 4.5; 5.6). Quando o Pai é colocado em primeiro lugar, o Filho em terceiro, e o Espírito entre eles, como aqui, não resta lugar para se duvidar da co-igualdade do Espírito com eles dois. Confirmando isto, uma série de passagens “triádicas” ligam Pai, Filho e Espírito Santo na inseparável unidade de um único plano de graça (veja 1 Coríntios 12.4-6, 2 Coríntios 13.14; Efésios 1.3-13; 2.18; 3.14-19; 4.4-6; 2 Tessalonicenses 2.13,14; 1 Pedro 1.2). A conclusão é de que o Espírito não é mera criatura poderosa, como um anjo; Ele, juntamente com o Pai e o Filho é Deus Todo-poderoso. Por isso, pedimos: nunca pense nem fale no Espírito Santo em termos inferiores aos pessoais!


O  Espírito Santo e Cristo

Propomos que façamos do Evangelho de João, o trampolim para que, a partir dele, elucidemos o novo ministério pactual do Espírito; pois é no Evangelho de João, dos lábios do próprio Jesus, que nos é dado o indício, a sugestão vital para entendermos esse ministério. Com respeito a este tópico, de qualquer forma, precisamos estar sobre os ombros de João, para entendermos plenamente o que nos dizem Mateus, Marcos, Lucas, Pedro e Paulo acerca do Espírito.

A PROMESSA DO ESPIRITO. Na noite em que foi traído, assim nos conta João, Jesus falou extensivamente com onze de seus seguidores a respeito do seu futuro discipulado, à luz da sua partida iminente para a glória (capítulos 13-16). Ele se referiu várias vezes ao Parácleto, a quem identificou como o Espírito da verdade (14.17; l5.26; 16.13) e como Espírito Santo (14.26). O Parácleto, disse Ele, seria enviado pelo Pai mediante seu pedido pessoal (do Filho), logo em seguida à sua partida (14.16, 26), e assim pode-se dizer que Ele seria enviado pelo Filho como agente do Pai (15.26; 16.7). Ele seria enviado, disse Jesus, “em meu nome” (14.26), ou seja, como correio de Jesus, seu porta-voz e representante; Ele ficaria com os discípulos de Jesus “para sempre” (14.15); e, mediante a sua vinda a eles, o próprio Jesus, seu Senhor glorificado, na verdade retornaria a eles (14.18-23). Em seu novo ministério pactual (pois é a esse respeito que Jesus estava falando), o Espírito obliteraria a si mesmo, dirigindo todas as atenções para Cristo — e, conseqüentemente, afastando-as de si próprio — e atraindo as pessoas para a fé, esperança, amor, obediência, adoração e dedicação que constituem a comunhão com Cristo. Este, é bom que se diga, continua sendo o critério pelo qual pode ser medida a autenticidade dos movimentos supostamente “espirituais” — o movimento ecumênico, o movimento carismático, o movimento Litúrgico e assim por diante — e também o das experiências supostamente “espirituais”.

ESPÍRITO E A PRESENÇA DE CRISTO. Assim sendo, o Espírito faria da presença de Cristo e da comunhão com Ele e seu Pai realidades de experiência para aqueles que, obedecendo às suas palavras, mostrassem que o amavam (14. 21-23). “Se alguém me ama, guardará a minha palavra; e meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada". Este é o acesso para aquela qualidade de experiência cristã da qual o próprio João testificou, quando escreveu: “A nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo.” (1 João 1.3), e esse testemunho vem como desafio de Cristo para que nós todos busquemos esta comunhão experimental e não nos conformemos com nada menos do que isto.

ENSINO DO ESPÍRITO DE DEUS. E, outra vez, o Espírito haveria de ensinar como Jesus havia ensinado durante três preciosos anos do seu ministério na terra e a maneira de o Espírito ensinar seria fazer com que os discípulos lembrassem e compreendessem o que o próprio Jesus havia dito (14.26; veja também 16.13, onde a frase de Jesus "toda a verdade", à semelhança de “todas as coisas” em 14.26, significa não “o que os espera,” mas "o que me espera" — a cruz, a ressurreição, o reino, a volta, a restauração de todas as coisas). Este é o teste que mostrará o quanto do Espírito existe em cada um dos vários tipos de teologia supostamente cristã que demandam a nossa atenção hodiernamente.

O TESTEMUNHO DO ESPÍRITO. Finalmente, o Espírito comprovaria Cristo na forma de uma testemunha, fazendo que as pessoas soubessem que, embora crucificado como criminoso, Ele não era de forma alguma pecador, que de fato Ele estava sendo vindicado como justo por causa da sua volta à glória do Pai, que Ele começara a desempenhar o seu papel como juíz do mundo mediante o julgamento executado na cruz, que destronara o príncipe das trevas deste mundo (veja também 12.31) e que o fato de não reconhecê-lo nestes termos é o pecado de incredulidade (15.27; 16.8-11). Desta forma, o Espírito testificador agiria como um promotor público da humanidade, imprimindo em coração após coração o veredicto: "Errei, sou culpado; preciso de perdão", a medida que Ele faz entender a enormidade da rejeição de Jesus ou pelo menos de não tê-lo levado suficientemente a sério (16.8). Esta é uma promessa da ajuda do Espírito na evangelização. A sua maneira de convencer e sentenciar é através da persuasão cristã, à medida que a Igreja dissemina a mensagem apostólica; o seu testemunho é uma questão de Ele abrir o ouvido interno e aplicar à consciência individual as verdades que os cristãos que testificam colocam diante da mente (veja 15.27; 17.20).
Desta forma, o Espírito iria glorificar o Salvador glorificado (16.14), agindo tanto como intérprete, para tornar clara a verdade a respeito dele, quanto como iluminador, para assegurar que as mentes propícias a recebessem. Jesus, o Senhor Cristo, seria o ponto central do ministério, do Espírito, do princípio ao fim.

O Espírito Santo e os Primórdios Cristãos

Toda experiência cristã válida é um ato do Espírito de Deus sobre nós e através de nós. A explanação inclui, no entanto, o elo entre a obra do Espírito e a de Cristo, de um lado, e a obra do Espírito e a da igreja, de outro.

O FUNDAMENTO: A GRAÇA DE DEUS. A suprema realidade em toda experiência cristã do Espírito é a graça soberana de Deus (Êx 34.6; Ef 1.7s. Graça (lat. gratia; gr. charis; heb. Chen) significa a livre demonstração de um favor, especialmente da parte de alguém superior para alguém inferior. Com respeito a Deus, é aquela sua decisão espontânea, livre de qualquer coação e de forma alguma forçada por nosso mérito, de ter misericórdia das criaturas pecadoras, salvando seu povo de todos os efeitos de seus pecados através de Jesus Cristo (At 15.11; Ef 2.8; Tt 2.11). A liberdade da graça divina precisa ser destacada. Deus age para salvar por sua própria escolha; é uma obra divina que ultrapassa todas as exigências do fato de ter sido Ele o Criador; como acontece com Israel, e também com a igreja, não foi de modo algum por causa do que éramos ou jamais seremos (Dt 7.7s). Deus ama e salva seu povo porque ama-o e quer salvá-lo. Não pode haver qualquer “explicação” além dessa.
A graça de Deus é soberana (At 18.27; Rm l1.5s; lCo 15.10). Por ser Deus quem decide salvar seu povo, Ele irá certamente concretizar essa resolução. Nenhum poder, demoníaco ou humano, poderá sustar o seu propósito. Que Deus seja Deus! Os vários aspectos da experiência cristã do Espírito expostos abaixo são simplesmente facetas distintas desta realidade fundamental, a graça soberana de Deus em sua operação para salvar pecadores.

A ESSÊNCIA: UNIÃO COM CRISTO PELO ESPÍRITO. O âmago da experiência cristã do Espírito Santo está no fato dEle levar-nos a uma relação viva com Jesus Cristo e assim partilharmos do sua redenção e de todas as suas bênçãos. Toda experiência cristã pode concentrar-se neste dom de Deus para nós através de seu Espírito, nossa união com Cristo.
A base bíblica da união com Cristo está na visão de fé contida no Novo Testamento. Fé significa fé "em" Jesus Cristo (At 16.30s; Rm 3.22; Fp 3.9s). As preposições gregas usadas com "crer" (eis, en, epi) abrangem a idéia de crer "em" Cristo. A fé envolve, portanto, uma relação viva com o seu objeto; ser um cristão significa estar unido a Cristo.
A base do conceito “união com Cristo pela fé” é a noção do Antigo Testamento quanto à solidariedade entre o Messias e o povo messiânico. Um Messias separado de seu povo era inconcebível; ele representava Deus para o povo (Is 11.9) e o povo para Deus (Jr 30.21). Duas das principais figuras messiânicas, o Filho do Homem e o Servo do Senhor, pairam desse modo entre o indivíduo e a comunidade (Dn 7.13; cf. 7.l5ss; Is 42.1; cf. 41.8s).
Além disso, estar unido com Cristo significa achar-se unido a -Ele em toda a extensão de sua missão redentora (cf. Fp 2.5-11). O cristão morreu com Cristo (Rm 6.1-11; Gl 2.20) foi ressuscitado com Cristo (Ef 2.5s; Cl 3.1s), levantou-se com Cristo para participar agora do seu reino nos lugares celestiais (Rm 5.17; Ef 2.6) e está destinado a participar da glória vindoura de Cristo com Ele (Fp 3.20s; 1Jo 3.2). A obra do Espírito na regeneração do cristão é portanto uma obra em que o Espírito nos une a Cristo. "O Espírito Santo é o elo pelo qual Cristo nos une eficazmente a Ele" (Calvino). Os elementos principais desta união são nosso chamado, regeneração, arrependimento, fé, justificação e adoção.

Chamado. Refere-se àquela obra de Deus pelo seu Espírito em que Ele chama os homens e mulheres para que se aproximem e recebam sua misericórdia em Jesus Cristo. A idéia do chamado de Deus é comum na Escritura (Gn 3.9; Êx 3.4; 1Sm 3.4; Is 43.1; Jr 7.13; Jo 10.3). Em especial, Deus chama através da proclamação do evangelho seja em forma de pregação ou de qualquer outro meio (Ef 1.11-13; 2 Ts 2.13s). A graça soberana de Deus não opera de maneira impessoal ou arbitrária, mas sempre por meios pessoais conforme seu plano. Ele se dirige pessoalmente às suas criaturas, chamando-as com graça e paciência para que se voltem para Ele e confiem em Sua misericórdia em Cristo.
Pertence ao mistério da incredulidade humana o fato de nem todos os que ouvem o chamado de Deus através do evangelho responderem ao mesmo. Assim sendo, pode-se fazer uma distinção entre o chamado geral de Deus, pelo qual Ele chama a todos os que ouvem o evangelho para que se aproximem dEle (Mt 9.13), e o chamado efetivo de Deus, em que tal apelo leva a uma resposta de arrependimento e fé em Cristo (Rm 1.6; 8.28,30; 1Pe 1.15). Esta distinção pode ser claramente observada nos ensinos de Jesus (Mt 22.14).
Regeneração. A regeneração significa literalmente "nascer de novo" ou "renascer". O Antigo Testamento referia-se a uma obra futura do Espírito, mediante a qual Ele habitaria no meio do povo de Deus, dando-lhes nova vida e capacitando-os a cumprir a vontade divina (Ez 36.25s; cf Jr 31.33). No Novo Testamento, Jesus fala a Nicodemos da regeneração pelo Espírito como o único meio de entrar no reino de Deus (Jo 3.1-8). Outras referências bíblicas repetem estes termos: "nascido dele (de Deus)" (1Jo 2.29; 3.9; 4.7; 5.4,18; Jo 1.13), "regenerado pela Palavra" (1Pe 1.23; cf. Tg 1.18), "nova criatura" (2Co 5.17; Gl 6.15), "criados" por Deus (Ef 2.10; 4.24).
A regeneração marca o momento e o meio de entrarmos em união com Cristo. Trata-se de uma mudança instantânea da morte espiritual para a vida espiritual, uma ressurreição espiritual (Ef 2.1,5), o acontecimento único no início da vida cristã, paralelo ao nascimento físico. A regeneração difere da conversão, à qual se acha ligada, ao destacar o ato de Deus dando uma nova vida; a conversão é o ato humano de voltar-se do pecado para a justiça, e acompanha a regeneração. Através desta o crente recebe uma nova natureza espiritual que irá expressar-se em novos interesses e preocupações. Os regenerados preocupam-se principalmente com "as coisas de Deus", sua Palavra, seu povo, seu serviço, sua glória, e, acima de tudo, com o próprio Deus. Eles encontram novos poderes para resistir ao pecado, para obedecer e servir a Deus.
É um erro supor que a regeneração deva ser necessariamente acompanhada de certos elementos emocionais. Nossa percepção da mudança de perspectiva, de desejos e de atitudes pode ser gradual e quase imperceptível. A pessoa criada em um lar cristão e que aprendeu o evangelho desde a infância pode ser atraída para Cristo e chegar à idade adulta com uma fé firme em Cristo, sem ter passado por qualquer crise específica que possa ser identificada como o momento do novo nascimento. A experiência de outros não é normativa. Nem todos podem citar ocasião e lugar específicos para o momento da regeneração. Esse é geralmente o caso, mas não precisa ser assim. Na verdade, alguns que experimentam uma crise emocional e espiritual provam mais tarde que, com toda certeza, não foram regenerados de maneira alguma. Isto foi demonstrado por Spurgeon que comentou que a ignorância por parte do indivíduo quanto à hora precisa de seu nascimento não era uma evidência de que o mesmo não estava vivo! A prova da regeneração pelo Espírito é a convicção íntima do indivíduo de que Cristo é de fato Senhor e Salvador e as evidências da vida do Espírito nele e através dele.

Arrependimento. O termo significa literalmente "mudança de opinião". No contexto bíblico refere-se a uma mundança de idéia em relação ao pecado e ao mal. O arrependimento é visto na Bíblia como um elemento fundamental na resposta do homem a Deus, geralmente ligado à fé; nós nos voltamos do pecado para Cristo (Mc 1.15; At 2.38; 20.21). A conversão, literalmente "mudança de direção", é um termo associado a este.
O chamado de Deus para o arrependimento é um lembrete do caráter fundamentalmente moral do evangelho e da nova vida que segue nossa aceitação do evangelho. O evangelho preocupa-se essencialmente com o pecado humano e o remédio de Deus. O arrependimento é um dos elementos em toda resposta sincera ao evangelho De modo inverso, a ausência de qualquer mudança de atitude em relação ao pecado é uma evidência de que a pessoa não foi verdadeiramente regenerada ( 1Jo 3.9).
Como a fé, o arrependimento não fica confinado aos primeiros momentos da vida cristã. O cristão é chamado para arrepender-se durante a vida inteira, afastando-se sempre do pecado, conforme este lhe é revelado. Este espírito de arrependimento ou quebrantamento diante de Deus, a morte diária para o eu e o pecado, não um sinal de falta de crescimento espiritual, mas de intimidade com Deus e genuína maturidade.

Fé. A fé é fundamental a toda experiência cristã autêntica. Sem fé é "impossível agradar a Deus" (Hb 11.6). A fé pode ser provisoriamente descrita como "confiança na verdade de Jesus Cristo crucificado e ressurreto".
Fé é confiança. Envolve um compromisso pessoal ativo para com Deus e Cristo e não apenas uma percepção da realidade de Deus. Neste último sentido, o diabo e os demônios também crêem (Tg 2.19). O diabo não é ateu, nem agnóstico; ele está consciente da realidade de Deus e da redenção em Cristo. Mas de modo algum ele tem qualquer compromisso com Deus; ele não tem fé.
Fé é confiar na verdade. A fé se baseia na realidade objetiva; corresponde à verdade da revelação de Deus em Cristo e no evangelho. Como disse Lutero ao justificar suas discussões dogmáticas em defesa do evangelho: "Não existe cristianismo onde não há afirmações..." Emendar ou reduzir o conteúdo do evangelho no interesse da comunicação eficaz ao homem moderno é portanto um empreendimento perigoso, autodestrutivo no final, pois inevitavelmente enfraquece a fé ou até mesmo a torna impossível, devido à remoção da base em que ela se apóia.
Fé é confiança na verdade de Jesus Cristo, crucificado e ressurreto. O conteúdo objetivo em que repousa é o Cristo do evangelho, que "foi entregue por causa das nossas transgressões, e ressuscitou por causa da nossa justificação" (Rm 4.25; cf. Jo 1.12; 3.16; At 16.30s; Rm 10.9). Fé em Cristo significa compromisso com quem morreu e ressuscitou por cada um de nós. Significa estar unido a Cristo.

Justificação. A justificação é aquela obra da graça de Deus pela qual o pecador, mediante sua união pela fé com Cristo, é tido como justo diante de Deus, com base na obediência e na morte de Cristo. É vital reconhecer que a justificação refere-se à condição de justiça que Deus concede ao crente e não principalmente à justiça intrínseca, real. Este é o fato que forma a base da paz, da segurança e da alegria do cristão. Sendo pecadores, não somos aceitos em vista de nossos débeis esforços para obedecer adequadamente a Deus, mas por Ele nos garantir a perfeita justiça de Cristo.
Isto significa então que a maneira como vive a pessoa justificada é irrelevante? Essa idéia deu margem a muita discussão. De fato, o Novo Testamento parece em princípio, falar de dois modos: "Verificais que uma pessoa é justificada por obras, e não por fé somente" (Tg 2.24); “Concluímos, pois, que o homem éjustificado pela fé, independentemente das obras da lei” (Rm 3.28). A aparente contradição entre Tiago e Paulo se dissolve quando notamos o emprego diferente da terminologia e os diferentes erros apontados pelos dois apóstolos.
A fé na discussão de Tiago equivale à aceitação intelectual do monoteísmo (2.14), o tipo de fé que os demônios possuem e que diferenciamos acima do significado pleno de fé no Novo Testamento, ou seja, a confiança pessoal em Cristo. Para Tiago, fazer boas obras significa observar a “lei régia, segundo a Escritura: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Tg 2.8). Paulo emprega o termo para referir-se a obras da lei; realizadas especificamente para ganhar a salvação à parte de Cristo. Romanos 3.28 fala então de fé viva e obras de auto-justificação, enquanto Tiago 2.24 fala da fé nominal e descompromissada e de obras espontâneas que honram a Deus. A justiça para Tiago significa o verdadeiro caráter moral da pessoa, enquanto em Paulo ela em geral ocorre no contexto da justificação, significando uma justiça doada, creditada. Quando Paulo pensa no juízo futuro, ele introduz também o assunto da conduta (Rm 2.6; 2Co 5.10). Ele está tão preocupado quanto Tiago com a “fé que atua pelo amor” (Gl 5.6) e rejeita totalmente a frouxidão moral entre os justificados (Rm 6.1s).
Paulo estava lutando com a confiança dos judeus no mérito das boas obras como base da salvação, em oposição à qual ele proclamou a salvação pela graça, unicamente através da fé. Tiago enfrentou um problema diferente, uma ortodoxia morta que, apesar de crer, não via implicações morais em sua fé. Paulo desejava estimular seus leitores, lembrando-os de que a fé que não transforma a vida diária do homem é falsa e morta. Assim, tanto para Tiago como para Paulo, a fé e as obras são ambas essenciais para uma resposta autêntica a Deus. As boas obras têm seu lugar não como a base da justificação, mas como resultado inevitável dela.

Adoção. A adoção refere-se àquela obra da graça de Deus pela qual Ele nos recebe como seus filhos através de Cristo e em união com Ele. A prática da adoção legal era muito comum na antiguidade. Existem exemplos dela no Antigo Testamento (Êx 2.10; 1Rs 11.20; Et 2.7) e a idéia faz parte da descrição de Israel como filho de Deus (Êx 4.22; Os 11.1). No primeiro século, sob a lei romana, o adulto que desejasse um herdeiro podia adotar alguém do sexo masculino em geral um adolescente ou mesmo um adulto, um costume facilmente transferível para a nova relação entre o cristão e Deus. Paulo faz uso especial do fato (Rm 8.14-17; Gl 4.1-7; Ef 1.5; cf. 1Jo 3.1s).
Quando nos lembramos do que éramos em nossos pecados, o conceito de adoção comunica com muito poder a magnitude da misericórdia de Deus para conosco. Que todos os nossos pecados fossem perdoados já é em si admirável; mas que os rebeldes perdoados viessem a tornar-se filhos e filhas legítimos de Deus, estabelecidos na intimidade de seu círculo familiar, é certamente um milagre além de qualquer outro.
A adoção subentende que a vida cristã é, em primeiro lugar, uma vida com Deus como Pai (Rm 8.15; G1 4.6). Ambos os versículos falam do uso da palavra Abba ao dirigir-nos a Deus. Esta foi exatamente a expressão usada por Jesus em suas orações. Significa “Pai muito amado”, ou simplesmente “Papai”.
Segundo, a vida cristã é também uma vida comunitária, A adoção nos ensina a ver os companheiros cristãos como irmãos e irmãs na Família de Deus. Esta é possivelmente a palavra mais profunda que podemos usar a respeito de nossos relacionamentos cristãos; fazemos parte todos juntos, da grande família de Deus que abrange todas as nações e gerações.
Terceiro, a adoção significa vida com Cristo como nosso irmão mais velho (Rm 8.14, 29; Hb 2. 10s). No mundo romano, o filho adotivo tinha todos os direitos legais na família, equivalentes aos de quaisquer outros filhos naturais. Ele podia até mesmo ser designado pelo pai como herdeiro legal, superando os direitos dos filhos legítimos. Que coisa surpreendente! São-nos concedidos todos os direitos na família de Deus, juntamente com o filho legitimo do Pai, o Senhor Jesus Cristo.
Adoção, finalmente, expressa a certeza de nossa esperança (Rm 8.14; Gl 4.6). Somos herdeiros de Deus, co-herdeiros com Cristo. Em sua graça espontânea, o Pai nos dá o direito de participar de sua glória futura em Cristo.

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